Chorume: o passivo ambiental na gestão de resíduos sólidos

Por 23/07/2018Outros

Com a aprovação, em 2010, do Plano Nacional de Resíduos Sólidos(Lei 12.305/10), todas as cidades do país estão proibidas de utilizar lixões ou aterros controlados (estes se assemelham muito com os lixões, pois em ambos não há tratamento adequado para evitar a contaminação do solo pelos resíduos dispostos) para a destinação de seus resíduos sólidos urbanos (RSU), passando a responder por crime ambiental, sob pena de multa de até R$ 50 milhões. O prazo previsto para a o encerramento de atividades ou para a adequação da situação dos lixões foi agosto de 2014, no entanto, quatro anos depois do prazo final, a situação da disposição dos RSU ainda é crítica.

De acordo com dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil de 2016, estudo feito pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE) anualmente, o Brasil ainda apresenta boa parte de seu lixo tendo destinação imprópria: mais de 3 mil municípios brasileiros ainda enviam seus resíduos gerados para lixões ou aterros controlados, que não possuem o conjunto de sistemas e medidas necessários para proteção do meio ambiente contra danos e degradações.

Disposição de RSU em 2016

Disposição de RSU no Brasil em 2016 (fonte:ABRELPE)

Os municípios e órgãos governamentais, bem como os participantes de cada cadeia produtiva, devem identificar os passivos ambientais de áreas contaminadas e indicar medidas saneadoras para os mesmos. O conceito de passivo ambiental está inserido num ramo específico da contabilidade chamado Contabilidade Ambiental. Segundo o autor José Carlos Marion, os passivos ambientais são todas as obrigações exigíveis da empresa, que, a partir da data de seu vencimento, serão cobradas e reclamadas e representam qualquer sacrifício econômico em prol da preservação, recuperação e proteção do ambiente, complementa a autora Araceli Ferreira. Ainda segundo Kraemer, levantar o passivo ambiental de um empreendimento significa identificar e caracterizar os efeitos ambientais adversos, de natureza física, biológica e antrópica, proporcionados pela construção, operação, manutenção, ampliação ou desmobilização de um empreendimento ou organização produtiva e devem, portanto, ser tratados com muita atenção.

Então, quais os principais fatores que dificultam o atendimento às diretrizes de disposição de resíduos?

Além das dificuldades financeiras em atender à adequação ou a construção de aterros sanitários, há um obstáculo particular: a redução do passivo ambiental da produção do líquido percolado em aterros sanitários. O resultado da degradação e solubilização de componentes do lixo orgânico dos aterros sanitários é chamado de líquido percolado de aterros sanitários, lixiviado ou ainda, popularmente conhecido como chorume. É um líquido de odor desagradável e escuro, gerado no processo de decomposição físico-química e biológica dos resíduos, que apresenta baixa degradabilidade e altíssima carga de compostos orgânicos tóxicos, metais pesados, ácidos graxos, ácidos húmicos, fosfatos e nitratos, substâncias carcinogênicas e estrógenos ambientais.

Por tratarem-se de compostos solubilizados pela água da chuva, há a contaminação do solo por intermédio da infiltração dos líquidos percolados que, ao adentrarem o solo, podem modificar suas características físicas, químicas e biológicas, bem como as das águas subterrâneas, no caso de alcançá-las. Desta forma, a matéria orgânica do chorume, a do solo e a associação das duas, podem limitar ou tornar inviável o uso dos recursos naturais. Há, ainda, a possibilidade de contaminação de cursos d’água, por meio do transporte superficial e, desse modo, compor uma questão de saúde pública, proliferando vetores de doenças, influenciando negativamente a saúde da população.

Se, portanto, um dos problemas fundamentais enfrentados pelo gerenciamento de resíduos sólidos no Brasil é a disposição desse líquido percolado gerado. O tratamento do chorume torna-se, então, uma das principais diretrizes das medidas saneadoras dos passivos ambientais de aterros sanitários, bem como de lixões ou aterros controlados em processo de recuperação.

De um aterro para outro, a qualidade dos lixiviados é diferente, devido a diversos fatores que afetam sua composição. Portanto, por tratar-se de uma substância de composição complexa, não há uma prática eficiente estabelecida para todos os tipos de percolados. A concepção do tratamento do chorume deve contemplar a particularidade de cada resíduo, demandando estudo detalhado e profundo sobre a problemática local.

De modo geral, atualmente, utilizam-se sistemas de drenagem como procedimento para percolado gerado, a fim de remover grande parcela desse lixiviado formado, em um processo físico para a separação do chorume em efluente tratado e efluente concentrado, o que, no entanto, só amplia o passivo.

É fundamental, portanto, a busca por concepções de sistemas de tratamento que atuem na redução desse grande passivo ambiental dos aterros sanitários que é o chorume.

 

 

 

 

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