A ameaça do chorume

Por 30/08/2018Outros

Nos aterros, lixões e qualquer lugar de disposição de lixo, os resíduos se decompõem dando origem ao chorume, o problema mais grave relacionado à operação de aterros sanitários. O chorume é um líquido mal cheiroso, de coloração escura ou negra, que apresenta uma elevada demanda química de oxigênio (DQO), altamente contaminante e que demanda cuidados em sua destinação.

Aterro e lixão – Diferenças

Os lixões são locais à céu aberto, que recebem o lixo, em deposição desordenada, sem compactação ou cobertura e não possuem qualquer tipo de preparo para receber os resíduos sólidos urbanos (RSU). Não há impermeabilização, não há tratamento adequado aos resíduos, nem possuem critérios sanitários de proteção ao meio ambiente.
Já os aterros sanitários são locais cujo terreno foi preparado, nivelado e teve sua base selada com argila e mantas de PVC. Além de sistemas de impermeabilização, há ainda a cobertura diária dos resíduos, vida útil acima de 15 anos e monitoramento de águas subterrâneas. Desse modo, com tais medidas e a impermeabilização do solo adequada, o percolado formado pelo lixo não contamina lençóis freáticos ou o ambiente ao redor. Portanto, utilizando-se técnicas sanitárias de impermeabilização do solo, compactação e cobertura diária das células de lixo, coleta e tratamento de gases e também do líquido percolado (chorume), o aterro sanitário é a destinação mais adequada ao resíduo urbano.

PNRS e desativação dos lixões

Até 2014 os lixões ainda eram permitidos e foi tempo suficiente para deixar marcas no meio ambiente. A necessidade da desativação dos lixões ocorreu a partir de 2010, quando foi implementada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que determinou o fim destas instalações. O processo de desativação dos lixões trouxe algumas constatações alarmantes sobre os danos que já haviam sido provocados pela falta de controle do processo, principalmente no que diz respeito à atuação do chorume infiltrado nessas regiões.

resíduo sólidos em lixão

Disposição de resíduos sólidos em lixão a céu aberto.

Os danos do chorume no Estrutural – um dos maiores lixões do mundo

Em funcionamento desde os anos 1960, ativo por mais de 50 anos até o início de sua desativação em 2014, 136 hectares de área do lixão, aproximadamente 1,5 km de núcleos urbanos, 1 milhão de pessoas vivem em um raio de 10 km do lixão e próximo do Parque Nacional de Brasília, uma reserva ambiental, um reduto de preservação do cerrado, com mais de 40 mil hectares, e das bacias que fornecem 27% da água potável da capital federal.
O doutorando em geofísica Márcio Maciel Cavalcanti, em sua dissertação de mestrado, comprovou a presença de chorume no Parque Nacional de Brasília. Segundo ele, até mesmo as árvores próximas ao aterro apresentam metais pesados na folhagem. “Essas plantas geram flores e frutos que podem, futuramente, trazer problemas para os animais”. Há, ainda, o perigo do líquido já ter contaminado a água do córrego do Acampamento, que nasce na unidade de conservação. “Identificamos que o chorume chega ao córrego e, em períodos de grande concentração de chuva, pode haver contaminação da água devido à presença de metais pesados e de carga orgânica.” A primeira análise oficial da água do córrego Acampamento, realizada em dezembro de 2013, apontou a existência de nitrito, nitrato e amônia — compostos que indicam presença de chorume.

O chorume no Jardim Gramacho

Já no Jardim Gramacho, lixão localizado a menos de 30 quilômetros do bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, há, além dos problemas ambientais, um grave problema social na desativação do lixão. Jardim Gramacho recebeu, durante mais de 30 anos, a maior parte do lixo procedente do Rio de Janeiro e de Duque de Caxias e era fonte de renda de dezenas de famílias que vivem no local e, quando desativado, em 2012, deixou muitas famílias apenas com a promessa de urbanização do bairro e novas fontes de renda. Promessas que, até o final de 2017, conforme traz reportagem do El País, de María Martin, não foram cumpridas. Hoje o bairro convive com inúmeros depósitos ilegais de lixo, que se instalam para ocupar a lacuna deixada pela falta de planejamento na desativação do lixão. Estes depósitos ilegais recebem resíduos de construção civil e estão aterrando a área contígua do manguezal da Baía de Guanabara. A política de fechamento do lixão incluía, também, medidas para mitigação do impacto do lixo sobre o mangue (o lixão localiza-se próximo a áreas de proteção ambiental).
No entanto, em 2016, surgiram muitas denúncias sobre o despejo de chorume na Baía de Guanabara, proveniente do Jardim Gramacho. Relatórios do Instituto Estadual de Ambiente (Inea) indicavam que havia um canal para conduzir o chorume bruto para um braço de rio (Rio Sarapuí, às margens do Jardim Gramacho, considerado um dos rios mais contaminados do estado pelo Inea), alcançando a Baía de Guanabara. Estima-se que 800 mil litros de chorume diários ainda alcançavam a Baía de Guanabara, uma vez que, além da contaminação direta, há contaminação via mangue próximo ao local. A equipe de vistoria do Inea constatou que a estação de tratamento de chorume, que até foi instalada no local pela empresa que administra os resíduos , estava tratando o chorume oito vezes menos do que deveria. Em nova coleta posterior, já foi identificado o despejo de chorume bruto nos locais.
No início de 2018, a Justiça Federal determinou que fossem tomadas medidas para conter o chorume proveniente do antigo lixão. De acordo com o Ministério Público Federal, há fissuras e rachaduras em vários trechos do aterro, que ainda provocam vazamento de chorume para a Baía de Guanabara.

Soluções para gerenciamento de resíduos

Há, ainda, o problema de aterros sanitários que, sofrendo com má gestão, regridem sua posição na gestão de resíduos, virando lixões descontrolados. Em modelos mundiais mais atualizados teríamos medidas de sustentabilidade aplicadas a todas as fases do gerenciamento de resíduos sólidos, reduzindo o consumo e destinando os resíduos para o reaproveitamento e reciclagem. Porém, até lá, para a desativação de lixões, deve-se monitorar as áreas de contaminação e destinar o chorume produzido a um tratamento adequado, afinal desativar um lixão e impedi-lo de receber o lixo é apenas uma medida inicial, ele deve, também, parar de poluir.

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